Ensaio – O saber de ovo, por Lina Cavalcante

Eu era muito jovem e nunca tinha lido Clarice quando fui ao teatro ver uma montagem de “Uma Aprendizagem ou livro dos prazeres”. Tocada pela peça, fui ler. Clarice começava o livro com uma vírgula. E fiquei algum tempo olhando para aquela primeira página, fascinada pela mulher que podia começar um livro assim. A vírgula é uma pequena pausa, um sinal de separação. Fiquei pensando que, apesar de começar dali, Clarice me lembrava de que tinha um antes. Toda história é um recorte. Como essa que estou a contar. Além disso, aquela página que começava com uma vírgula me dizia que Clarice estava querendo marcar uma diferença. Me interessei por isso e passei dois anos lendo apenas a autora.

Para falar com vocês hoje, escolhi o conto de um livro que nunca esteve entre meus favoritos, apesar de gostar bastante. Fui folheando alguns e resolvi que seria “A via crucis do corpo”. Já nas citações iniciais algo me intriga. Ela cita a bíblia, cita uma frase de autor desconhecido e cita uma frase de um personagem ainda sem nome. “Eu, que entendo o corpo. E suas cruéis exigências. Sempre conheci o corpo. O seu vórtice estonteante. O corpo grave.”

Vamos seguir pensando um pouco nisso, nesse corpo grave. Ainda mais agora que estamos passando por tudo isso. Talvez pelo meu interesse em estudar o feminino, o conto “Praça Mauá” roubou a minha atenção, fiquei às voltas com ele e quero colocar vocês nessas voltas. Clarice conta a história de uma mulher que trabalhava em um cabaré. Seu nome era Luisa e o de guerra era Carla. Carla trabalhava “dançando meio nua e enganando o marido”. A autora brinca com essa questão do nome de guerra, nas possibilidades de ser dessa mulher. Carla que era Luisa. Em um determinado momento do conto ela fala sobre uma amizade que Carla tinha com um travesti, “um homem que não era homem”, nas palavras dela. Eles eram muito amigos e confidentes. Um dia se interessaram pelo mesmo homem, o que causou muita raiva no travesti. Ele, então, diz a Carla: “Você não é mulher de verdade”. Carla se espanta: “Eu? Como é que eu não sou?”. Ele responde: “Você, vociferou Celsinho, não é mulher coisa alguma! Nem ao menos sabe estalar um ovo! E eu sei! eu sei! eu sei!”. 

Diz Clarice que Carla foi atingida na sua feminilidade mais íntima. Arrisco dizer, Carla foi atingida em sua inconsistência. Foi apontada a ela a impossibilidade de ser A mulher. Estalar um ovo, acho magnifico, porque é do banal, o que nos mostra que poderia ser qualquer coisa. Quando não há algo específico que dê esse lastro para ser mulher, cada uma vai procurar um caminho. O que é mulher de verdade? Não há uma forma específica de ser mulher de verdade. E Clarice coloca a acusação (“você não é mulher de verdade”) na boca de um travesti, que ela chama assim mesmo, pelo artigo masculino. Talvez para aquele tempo ela tenha achado que já tinha ousadia demais no texto. Ou ainda ela achou que Celsinho sendo a mulher de verdade do conto nem precisaria de apoio de artigo. Não tenho como saber, mas faço a aposta na segunda opção e por isso sigo a indicação da escritora. O que faz o travesti ser mulher e Carla não ser? No conto, o estalar do ovo. Assim, Celsinho garante a sua feminilidade e, assim também, aponta a falta de Carla. Leio esse conto e sinto Clarice mandando aos diabos a essência do ser mulher. Coloca no estalar de um ovo. E ainda me chama a atenção a fala de Celsinho. Pois, ele sabe. Ele sabe. Ele sabe.

Uma grande amiga, há uns anos, me indicou o documentário Laerte-se. Foi interessante. Em um momento ele diz algo sobre o que ele ouvia das outras pessoas.  Algo como, “ah, você quer ser mulher? Então, tem que raspar as pernas”. E ele vai e raspa. “Ah quer ser mulher? Então tem que aprender a andar”. Ele aprende. “Ah, quer ser mulher, então tem que ter seios”. E por aí vai. Pode ser qualquer coisa porque não há nada que seja de fato, como marca única. 

Em minha trajetória como psicanalista também já escutei essas questões, esses caminhos. Aquela que buscava pela via do trabalho. E não entendia porque, quando não tinha trabalho desmoronava. Dizia que desmoronava porque sem trabalho se sentia só. Não era dinheiro, era outra coisa. “Preciso trabalhar. É a minha maneira de ser”. Contou ser essa a sua forma de se expressar no mundo. Esse trabalho (e não outro), essa mulher, que assim existe, que sem ele desmorona. E então ela traz um par de opostos: o sustentar-desmoronar. Escolhe um trabalho que a faz ser alguém no mundo, ao mesmo tempo um trabalho mercadologicamente pouco reconhecido e diz: “meu trabalho nunca vai me sustentar”. Assim, ela garante o espaço da falta. Ou seja, sem ele desmorona, mas ele também não a sustenta como ela queria.

Há aquela que precisava de um homem, ser mulher de alguém. Mesmo que já não houvesse amor. “Sem ter alguém não consigo ver que tenho uma vida”. E se angustiava profundamente diante de uma separação, mesmo dizendo que não o amava mais. E dentro dessas escolhas, amor, trabalho, filho, publicar um artigo… há uma pluralidade de histórias. E aquilo que nunca se completa. 

Carla que era Luisa. Talvez fosse Carla o sustento da posição de Luisa. Celsinho que era um homem que não era homem. Carla que não era mulher de verdade porque não achou nada para sustentar que fosse. Celsinho era. Ele e seu saber de ovo. Aquela que era uma mulher de alguém. A outra que era uma mulher de trabalho. E por fim, numa madrugada sem sono, resolvi reler o livro em uma golada só. E encontrei a pequena Nicole. Veja só, brincando com isso. “Nicole disse para o seu irmão mais velho, chamado Marco: você com esse cabelo comprido parece uma mulher. Marco reagiu com um violento pontapé porque ele é homenzinho mesmo. Então Nicole disse depressa: não se incomode,  porque Deus é mulher! E, baixinho, sussurrou para a mãe: sei que Deus é homem, mas não quero apanhar”. Nicole traz primeiro uma associação pela imagem. Mulher tem cabelo comprido, Marco tem cabelo comprido, portanto… Mas ela não para por aí e mostra que sabe o que está dizendo quando usa a figura de Deus ora mulher, ora homem para se livrar da surra da afronta. Ela sabe o que se desloca quando diz aquilo a Marcos e sabe como devolver ao irmão o que tirou. Joga com essas posições de homem e mulher assim como Clarice com sua mulher de verdade: o travesti.

Lina Cavalcante é jornalista, psicóloga e psicanalista (@linaxaviercavalcante)

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