[Conto #4 – Blog do Pacote] A perna cabeluda – por Edmilson Alves Maia Júnior

– Vai comprar uma carteira de cigarros ali, menino.

Maldito vício, podia nem esperar de manhã. Melhor ir caladinho, sem chiar, o pai batera nele só uma vez, firme mãozada na bunda. Tinha moral, mandou tá mandado. Podia voltar logo para assistir a novela de qualquer forma. (Ah, Tiêta, Tiêta…)

Morava na rabeira do gigantesco bairro, quase noutro município, bastava atravessar o beco da estação para o outro lado. Gostava de ir a pé com os amigos por todo o conjunto, horas e horas andando pelas ruas com nome de números e as avenidas com nomes de letras. Era como uma cidade de médio porte dentro de outra, com vida própria, que decidia eleições, que num dia faltava água, noutro faltava luz e era longe de tudo. No domingo pedalavam umas duas horas até o centro esvaziado pra comprar LPs e quadrinhos nas galerias e praças (faltavam apenas três para fechar a coleção do Hulk de mais de 100 números publicada no Brasil desde 1983: as edições 01, 03 e 23!).

Foi. Passou pelas gêmeas de cabelo liso graúna brincando na calçada vizinha. Na esquina o bar morto, sem Agepê, Noite Ilustrada ou Benito de Paula, diferente dos outros dias da semana. Pegou a Central, com os canais e suas bandas, via-se ao longe o horizonte, demoraria uns 15 minutos para ir mais 15 para voltar da mercearia quase no cruzamento com a outra avenida que dividia as duas etapas.

Não viu o Clébio, nem o Vandico ou o Jorge, que os velhotes chamavam de “turma do baseado” e que batiam papo na entrada da segunda rua depois da sua. Conversava com todos quando passava, gostavam de puxar assunto, falar das suas aulas, das meninas, de jogos de tabuleiro e times de futebol. Discutiam “se as mulatas eram mais gatas que as loiras”. Clébio comia partido pelas “morenas” e dizia, sorrindo, que era como no xadrez, “Melhor jogar de pretas sempre”. Declarava direto seu amor pela Clara Nunes! Vandico era fã das loiras, “as galegas”, estava de chamego com uma e ainda assistia assiduamente o Xou da Xuxa. O Jorge ficava menos na esquina, cedo de manhã pegava o cambão pro trabalho, gostava de falar de livros, tinha acesso a biblioteca do SESC e pegara com ele emprestados: O Poderoso Chefão, O Siciliano, O Nome da Rosa, A Profecia, Morte no Nilo, Papillon, Cristiane F, Capitães de Areia, só livro massa que passava dias, e noites, lendo até derrubar.

Tudo deserto.

Estranhou, mesmo sendo segunda-feira. Ninguém nas ruas perpendiculares a Central, nas esquinas, nem um pé de pessoa. Pela hora, 7, 7:30, não fazia sentido. Era somente ele e o sereno do escuro da noite mais o mato na beirada dos canais. Nada na próxima rua. Em nenhuma das que passava e olhava ate ó final. Nem na outra mais a frente, a do Comércio que pregou a “LISTA DOS VELHACOS” na parede, o que deu a maior confusão com o marombado da rua que foi tirar satisfação rasgando a cartolina que tinha o nome da galera. Nem na rua de número ímpar em que quebrou uma garrafa na sala quando a bola foi pela janela e veio o seu Marcinho pra bater na molecada. Nem na quadra em frente aonde estudava do outro lado da avenida e dos seus rachas até a madrugada. Nem nos vários orelhões que ultrapassava.

Então veio o estalo. No colégio mais cedo teve medo de ir ao banheiro. Todos tiveram. Meninos ou meninas ninguém ia sozinho a canto nenhum. A semana passada toda… Por causa da perna que aparecia do nada quando você menos esperasse – escondida depois de uma quina de chapisco, granito, de reboco ou não. Você dobrava uma parede e lá estaria. Cabeluda na sua frente, uma visão do inferno inexplicável. No lugar onde estaria o corpo, o cotoco eternamente apodrecido, abaixo um espetáculo de horror, músculos e nervos. Cheia de areia, sangue e pus nos pelos pretos encaracolados, o pé sujo, comido de rachaduras, com as veias salientes, as unhas enormes e imundas.

O horror é que matava também. Morrer de susto, que coisa. Recordou quando o botaram na cadeira no alto do armador para ficar quieto. Ou da brincadeira com outras crianças mais velhas na casa grande cheia de cômodos em que muita gente se reunia toda semana: escondiam-se e davam sustos uns nos outros. Era ansioso. Sempre levava os piores… E fechava os olhos quando tinha cena de suspense.

Triplo terror: morrer de susto, morrer de medo da pisa de perna, morrer das pezadas. Quem conseguia manter o sangue frio e corria ela pegava! Pulava até matar. Entrelaçava na perna da vítima, como um tipo de última transa sensual, dava a rasteira e tome chibata. No chão as coisas se resolviam breve. Nos beiços, na barriga, nas nádegas, tudo servia para as lapadas das unhas encravadas e pisões entrarem com força.

No ônibus, na escola, no centro, só se falava disso. Caralho! Lembrara bem no meio do caminho! Viu de longe a mercearia fechada. Na frente mais duas que podiam estar abertas. Negativo. Não iria voltar sem. Se chegasse para o pai com essa historia ele iria fazer hora o resto da vida. O velho não tinha medo nem de filme de terror. Só de O Exorcista e quando viu no cinema. Mas também: vomitaram em cima dele na sessão e tinha gente que ate desmaiava assistindo, até mulher grávida perdia o menino, disse! Era voltar de mãos abanando e aguentar a gozação ou sair da avenida e entrar nas ruas, dois quarteirões por trás, até o boteco do Brito. Poderia chamar que só fechavam o janelão as 10 da noite. Ficava perto do colégio de farda verde. Teria que entrar na rua a esquerda, dobrar a direita, depois a esquerda de novo.

Foi pelo meio da rua para tentar enxergar o que poderia ter depois de cada muro. Entrou na primeira, nada. Aproximou-se da outra, não vai ter nada, não vai ter nada. Estava todo arrepiado. Nada. Mais uma. Começou a imaginar se não havia algo atrás dele na esquina passada. Não olhe. Só em frente, só em frente. Mais uma a esquerda e viu a luz que vinha da abertura enorme e a sombra das grades de ferro no meio da rua.

O Bar do Brito. Onde ia com o pai para jogar damas ate tarde da noite. Em que personagens do birinigth ficavam contando histórias. Como na semana passada com o autoproclamado “catedrático” Inácio jogando e dizendo que “Essas coisas acontecem até nas melhores famílias de Londres”. Repetia toda hora essa máxima, diante um fato insólito, ou comum. Fulano levou chifre. E lá vinha. Beltrano ficou prostrado. Cicrano jogou errado e perdeu a partida: “Essas coisas acontecem até nas melhores famílias de Londres..”

Falava-se cada coisa ali. Uma vez ouviu o irmão de Vandico mais outros dizerem que foram perseguidos por um “viado que transavam através de presentes”. Altas horas o rapaz correu atrás deles com uma faca após uma discussão. Eles riam porque o cara levou a pior, estavam perto de uma construção o cercaram e as pedras cantaram na sua cabeça, de faca na mão sem poder fazer nada. Narravam as façanhas de um tal de “loiro bravo” que havia fugido do cerco da polícia e todos tinham visto se desviando das balas “parecia coisa de filme, ali é bandido mesmo, sabia fugir dos tiros dos “homi”, não se brinca com aquele ali” aí simulavam os movimentos dele pulando no chão, rolando ate escapar.

E os coroas, que tiravam o fim de semana para beberem Douradinha com mel ouvindo Altemar Dutra (“Que queres tu de mim, se tudo está perdido, amor?”), comentando das luzes descidas do céu que desapareciam pessoas de noite? Aparições de quando eles eram crianças nas capoeiras das suas cidadezinhas antes de mudarem para a capital. Especulavam, debatiam que eram os americanos atrás de órgãos e sangue e que começavam a sugar logo o caboclo que gritava de agonia até secar e não era nunca mais visto. Diziam nomes, discutiam quando começou, qual cidade sumia mais gente.

Eram papos assim, conversas sinistras, como aquela do PM amigo do seu pai falando de uma família do lugar que nascera. Chamaram o ex-marido da filha para ver os filhos no interior e o mataram a pancadas, em 77. Irmãos mais velhos, mãe, pai, a mulher, até avós e crianças novas, acertando o “Negão”. Pás, enxadas, paus de Jucá, tijolos, o que tivessem perto enquanto tentava fugir cambaleando. Morreu defronte a fazenda, arrebentado, e jogaram o corpo no mato fechado, feito se fazia com bicho.

Agora era silêncio, não havia mesas do lado de fora, quase vazio. Somente no balcão, em pé, com a meiota e laranjas cortadas, o “Seu Diocrinho”. Há muito teria sido professor de faculdade ou dono de farmácia, ou as duas coisas, e a mulher o deixara com os filhos pequenos, então teria resolvido morrer de beber de remorso. O que fazia praticamente todos os dias. Era educado e engraçado. Muito formal com seus óculos minúsculos, andando de pano passado, sem reclamar de nada ou falar grosserias. Não havia quem não o simpatizasse apesar de ser caladão, vivia no seu mundo próprio, cheio dos paus, gesticulando como se resolvesse equações complicadas ou discursasse contra a fome no planeta. Quando chegava não pedia a cachaça, as vezes todo se tremendo, as vezes mais decente, proclamava: “Me dê o conteúdo, por obséquio. Só quero o conteúdo. Obrigado.” Noutras era mais prático: “Só o conteúdo”.

Ele disse logo:
– Meu filho está com medo da perna cabeluda, né?
– Não, claro que não, Seu Tibério – respondeu, apavorado, pernas bambas.
Chamou alguém, estavam todos lá para dentro vendo TV. Veio o senhor Brito perguntando o que era. O pai queria o Hollywood, mas podia ser o Belmont, o predileto e muito forte que andava evitando, ou até o Free, que não gostava por achar muito fraco, mas fumava se fosse o jeito. Foi o Hollywood mesmo. Hora de voltar. Vamos lá.
– Cuidado com a perna, meu garoto…

Primeira esquina de volta. Mesma estratégia. Ir pelo meio da rua para conseguir sondar o que tinha logo mais na frente. Segunda. Terceira. Central. Agora era somente a reta, reta, o vento e as lágrimas de temor no rosto. De novo, sempre, não olhar para trás, só andar, não parar, mais rápido. Não olhar para trás. Sebo nas canelas. Deu uma breve carreira. Pernas para que te quero.

Pronto. Quase lá. Decidiu que não contornaria pelo meio da rua a última esquina. Iria dobrá-la de fato. Afinal, as duas meninas deviam estar por ali com a porta aberta. E seus pais bem vieram para fora de casa como faziam muitas vezes observando-as brincar, a mãe, professora de Historia, vivia lendo ali, o pai ouvia as notícias locais. Não havia o que temer.
Fingiu coragem, dobrou a esquina e então a viu.

A vizinha da frente com seu short cor de caqui, as pernas tortas, coxas grossas e lisas. Deu boa noite a ela e ao marido que estava ao seu lado com a filhinha pequena no colo. Nas cadeiras viam TV na calçada, estava no Jornal.

Deu mil graças a Deus mentalmente quando abriu o portão.

***

Nunca esqueceu aquela noite. Seu Tibério assassinado pelo filho, o “loiro bravo”, recusou-se a lhe repassar a mixaria da aposentadoria que todo mês dava. Seu Marcinho tivera o crânio arrebentado ninguém sabia o porquê pelo facão vermelho sangue que o Clébio exibia quando estava “melado”. O fortão da rua dos velhacos parou na UTI, a beira da morte. Vandico deu-lhe umas facadas no bucho. Coisa de rapariga, comentou-se à época. Jorge entrou em cana, pego com a seda.

Nunca mais saiu para comprar cigarro para o pai que passou a estocar em casa o pacote com 10 carteiras. Nunca mais ouviu falar de ataques da perna cabeluda. Décadas depois, leu, em um site de artigos acadêmicos sobre “Mídia, Medos Sexuais e Imaginário Social: Usos do Espaço Urbano na Modernização Conservadora da Ditadura Civil-Militar Brasileira e seus Desdobramentos na Sociedade Contemporânea”, que a perna cabeluda tinha vindo da Recife dos anos 1970 e havia tido um revival de suas manifestações no inicio da década de 1990 em várias cidades grandes do Nordeste.

“Mistéééério!!!”…

 

Por Edmilson Alves Maia Júnior

* Texto publicado conforme versão enviada pelo(a) autor(a), sem qualquer interferência ou edição do Pacote de Textos.

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1 Resultado

  1. Nyvea disse:

    Conto cuja leitura flui , feito água corrente num riacho margeando por memórias. Cada tem as suas !
    Gostei!

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