Clube de Leitura do Pacote – Anatomia de um desaparecimento (Hisham Matar), por Juliana Costa

“Às vezes a ausência do pai pesa tanto quanto uma criança sentada no meu peito”

É com esta frase que Hisham Matar inicia seu livro Anatomia de um desaparecimento e nos apresenta Nuri, narrador-personagem desta história. É através das memórias de Nuri quando criança que somos apresentados à sua história e à de sua família – ou, melhor dizendo, somos apresentados à saudade e aos efeitos da ausência em uma família.

O enredo criado por Matar, com passagens inspiradas na vida do autor (estadunidense de ascendência líbia), gira em torno do desaparecimento do pai de Nuri, que foi sequestrado pelo governo de seu próprio país. À medida que a história avança, sabemos que o Pai (que tem a grafia marcada em maiúsculo mesmo no livro) inicialmente foi um apoiador e, depois, se tornou opositor ao governo, passando a realizar atividades clandestinas para a derrubada do regime.

É interessante pensar no título do livro. Anatomia nos remete a algo palpável e detalhado, algo que descreve contornos e permanências, enquanto desaparecimento é algo etéreo e que imprime marcas indeléveis na vida das pessoas que têm que conviver com certa ausência. Através das memórias de Nuri, acompanhamos seu esforço em se aproximar do Pai e a saudade que sentia da mãe, falecida em circunstâncias desconhecidas por ele. Com a chegada de Noma, acompanhamos seu apaixonamento por esta mulher que viria a se tornar sua madrasta e a relação que se estabelece entre os três: Nuri, o Pai e Noma. Ainda em torno do Pai e de Nuri, temos Naima, funcionária da casa e que ao longo da narrativa ganha proporções maiores enquanto personagem, e, ainda, Beatrice.

No encontro do clube, falamos sobre essas mulheres orbitando entre o Pai e Nuri e também fizemos uma relação com o livro do encontro passado (Mil tsurus), já que neste também tínhamos uma conformação semelhante. Salientou-se que as personagens femininas têm seu papel definido na história, mas que sofrem com a relação machista e ausente estabelecida pelo Pai. E também o quanto o ponto de vista do narrador é esfumaçado, visto serem suas memórias e, mais ainda, memórias de uma história fragmentada.

O final em aberto do livro torna o desaparecimento do Pai uma marca indelével, algo que nunca vai se concluir, já que não houve o ritual de passagem. Espera-se indefinidamente que o desaparecido possa reaparecer a qualquer momento. A reflexão, então, traz à tona questões sobre os regimes ditatoriais e a dor do luto pelo desaparecimento de um ente querido.

Para quem perdeu, o encontro do Pacote está disponível, na íntegra, no Canal do Pacote no Youtube.

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