Clube de Leitura do Pacote – Mil Tsurus (Yasunari Kawabata), por Juliana Costa

“os mortos não impõem ética ou moral aos vivos”

(Yasunari Kawabata, Mil Tsurus, p. 90)

Na orelha do livro Mil Tsurus (ed. Estação Liberdade), do escritor Yasunari Kawabata, lemos: “A manifestação de uma aventura. É assim que o antigo grão-mestre Sen Soushitsu define a cerimônia do chá. Muito mais do que um modo ritualístico de beber, a arte do chá encerra significados profundos como a harmonia, o respeito, a pureza e a tranquilidade – elementos presentes no entrosamento gestual do anfitrião e o se convidado, mas também na estética dos utensílios rituais, passados de geração em em geração”.

É bem significativo esse trecho, pois Mil Tsurus tem seu enredo construído em torno deste ritual. Kawabata (Prêmio Nobel de Literatura) escreveu este livro entre 1949 e 1951, período em que o Japão passou por uma reconstrução após a Segunda Guerra Mundial e começou a vivenciar o dilema entre a manutenção das tradições e a ocidentalização de sua cultura.

A história se passa entre seis personagens centrais que têm suas vidas entrelaçadas. Kikuji Mitani é a personagem central dessa história. Convidado a participar de uma cerimônia do chá pela sra. Chikako Kurimoto, especialista na arte do chá e ex-amante do pai de Kikuji, ele se encanta por uma das convidadas, Yukiko, que veste um lenço com estampa de tsurus. E, nesta mesma cerimônia, depara com a sra. Ota (também ex-amante de seu pai) e sua filha Fumiko. Há, ainda, uma sexta personagem: as cerâmicas utilizadas na cerimônia do chá. 

Essas personagens vivenciam medos, desejos, memórias, afetos e intrigas. Em todos os momentos, essas vivências estão acompanhadas pelas cerâmicas que representam todas as gerações pelas quais passaram e a tradição milenar dos chás. É também através das cerâmicas que se dá a discussão de classe, visto que sempre se enaltece os valores delas – monetários e sentimentais. E, também, a decisão de se romper com as tradições. Quebrar literalmente uma dessas peças para simbolizar isso é uma passagem significativa do livro. 

De modo geral, em nosso encontro do Clube, falamos sobre essas questões das tradições e do rompimento com elas. Sobre Kikuji ser uma personagem sem decisão própria que fica orbitando entre a vida dessas quatro mulheres, sem se decidir entre manter a vida que sempre levou ou romper com ela. Consideramos que as personagens femininas têm destaque na narrativa e que são elas que levam a história, com destaque à personagem Fumiko, pois é ela que quebra o seu ciclo. 

Foi um encontro divertido onde a novela criada por Kawabata nos lembrou um novelão do horário nobre, do tipo Avenida Brasil. Obviamente, a novela criada por Kawabata tem muito mais camadas e significados, deixando um gostinho de que querer ler mais do autor em breve.

Para quem perdeu, o encontro do Pacote está disponível, na íntegra, no Canal do Pacote no Youtube.

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