(André Rodrigues) A ficção kafkiana e o estranhamento ártico

Os olhos do urso-polar são gemas negras perdidas na imensidão do corpo ártico. Envoltos numa membrana que protege a visão da luz ultravioleta, não emanam sinal vital para interação. Refletem a paisagem no suspense perturbador. O breu de estar sozinho diante do colosso indeciso de sua ação, amistosa ou brutal. As emoções retidas no indecifrável tornam difícil encará-los por muito tempo sem perder o equilíbrio gnóstico. Cair no abismo de uma percepção turva pela impossibilidade de leitura sobre o olhar do maior carnívoro terrestre à sua frente. Perto ou longe. Inquietante.

A escritora japonesa radicada na Alemanha, Yoko Tawada, teve a sensibilidade de grande ficcionista kafkiana para não se furtar ao desafio de explorar a vastidão da opacidade movediça do animal solitário.

Em 5 de dezembro de 2006, nascia o primeiro urso polar no Jardim Zoológico de Berlim em mais de três décadas. No entanto, foi rejeitado pela mãe logo após o parto. O pequeno urso Knut foi alimentado e cuidado por um funcionário do local. A história ficou famosa e ganhou os noticiários internacionais. Os passos de adaptação de Knut com o mundo estranho ao seu redor inspiraram Tawada a escrever “Memórias de um Urso-Polar”.

A obra reverbera traços da literatura russa nos entornos do absurdo ao contar a história de três gerações de ursos polares e as suas relações com a sociedade humana cercada por questões do século XX. Tudo tem início com a história da avó de Knut, nascida na União Soviética e que vai à Alemanha para levar adiante a missão de escrever suas memórias. Os seus escritos tornam-se best-seller, e por opção resolve buscar exílio no Canadá para viver com sua família.

Em seguida vem a apresentação da mãe de Knut: Toska, detentora de um olhar aguçado no estranhamento do complexo caráter político-cultural de seus companheiros humanos em um circo da Alemanha Oriental, onde seguiu carreira de dançarina de um espetáculo com outros de sua espécie.

No último fôlego, mas ainda assim de experiência ímpar dentro da narrativa, a costura surreal (e ao mesmo tempo tão fincada nos pés da filosofia e do social contemporâneos) deságua no encantamento do pequeno urso nascido em Berlim. A linguagem objetiva é precisa para nos afundar na poética das memórias e traumas do nascimento do animal, do enxergar a simulação parca da natureza de um zoológico e da tentativa dos laços que jamais serão compreendidos por outra espécie senão à de onde partiu levando consigo apenas fragmentos de memória.

Franz Kafka apresenta no clássico “A Metamorfose”, livro que já foi disponibilizado pelo Pacote de Textos aos assinantes, a desumanização de Gregor Samsa no inseto monstruoso, “sem espinha dorsal nem discernimento”, e um campo de reflexões acerca da individualidade, da integração social, da estranheza quanto aos papeis que ocupamos.

Yoko Tawada tece com destreza muito do que se encontra na grande obra do tcheco-alemão. E finca com ênfase a curiosidade desconcertante dos ursos-polares, a desmembrar o que está enraizado no modus operandi da sociedade humana. Encerramos a leitura tocados pela história de ursos que, dentro de subjetividade distante da nossa, questionam o que realmente habita de lógico e evoluído na civilização dos polegares opositores. Nas joias negras da visão polar está a matiz mais crua de nossas cicatrizes sociais. Agarram as certezas humanas na fragilidade do encontro entre as garras e a neve.

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